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Literatura - contos

  • Meu primeiro emprego

    Eu achava que era só mais uma manhã de sábado. Meu carro engole o asfalto da Radial Leste até chegar no elevado Costa e Silva e os meus olhos vislumbram, além dos carros a minha frente, as enormes montanhas de concreto com janelas . Primeira marcha, segunda, terceira , na esquina o farol. Rua Conselheiro Furtado . Engraçado, eu passei por aqui tantas vezes e só agora percebo : os prédios cresceram, o comércio mudou. Eu também mudei.

    Estou beirando os 40 . Dizem que para um ser humano é onde começa a vida. E para uma cidade ? Fazer 450 anos , abrigar milhões de vidas...é , São Paulo também mudou . Ora ele menino começando no Pátio do Colégio , crescendo desenfreado , abraçando tudo , trazendo o mundo para dentro de si. Tanta história já viveu. É parecido comigo. Eu também fui ao colégio, brinquei muito no pátio, aprendi muito na escola e em tuas ruas. E por falar em rua, é ali a Conde do Pinhal, uma das menores de tuas veias. Atrás do Forum João Mendes, quase em frente ao semáforo. Um prédio pequeno , onde um rapazinho com as pernas tremendo bateu o cartão de ponto pela primeira vez. O escritório de uma fábrica muito importante de produtos de limpeza. Elevador antigo de madeira , mal cabia 7 pessoas, mas havia uma ascensorista, simpática o bastante para dizer bom dia. Lembro-me bem : sexto andar. Diretoria de um lado, departamento de compras do outro. Garoto novo, primeiro emprego. Na carteira registraram : contínuo. Era o office-boy da época. Na hora do almoço era só descer o prédio, virar a esquerda e já estava na rua da Glória. Comia bife com arroz e fritas.

    O dono do restaurante foi um dos meus primeiros amigos. Zé , era assim que todo mundo o chamava. Enquanto eu tomava um cafezinho para tirar o gosto, ele bebericava whisky , escondendo o copo embaixo do balcão. Não sei se era para o seu velho pai não perceber ou para não pegar mal com os clientes. No fundo todo mundo sabia, mas ninguém se importava. O Zé era gente fina.

    Aos poucos fui percebendo tua gente, os executivos de gravata, as mulheres carregando sacolas, os mendigos nas esquinas pedindo, as prostitutas encostadas nas paredes. Eu olhava e disfarçava. Observava todo tipo de pessoa, cada qual do jeito , se espalhando apressada pelas tuas ruas. A rua dos sapatos, a das jóias, das fornituras, dos tecidos, das ferragens, das noivas, dos bancos. Como eu tinha uma relação de amor e ódio com os bancos. Em dia de pagamento, era um inferno ficar na fila. Eu ia a um, dois, três , vários bancos . Em compensação, um dia tranqüilo, era o paraíso para fazer hora na rua e voltar para o escritório só na hora de ir embora. E os cartórios! Desses, não havia dúvida de sentimentos . Era raiva mesmo. Papelzinho, fila , papelzinho. No meio do som dos carimbos que batia impiedosamente sobre as mesas, eu olhava para o rosto das pessoas que esperavam e pensava: eu jamais trabalharia num lugar como esse! Pelo menos eu andava livre pelas ruas. Até quando me mandavam pegar um taxi. Era a chance de ganhar uma grana. Eu ia a pé. Num passo ligeiro, subindo a Brigadeiro Luís Antônio rumo à Avenida Paulista. Pegar uma fila ou outra , de vez em quando, fazia parte do trabalho. Eu conhecia cada fila, cada banco e cada fliperama também. E jogava. Como eu jogava. Com uma ficha ganhava 10.

    Toda semana na rua São Bento. Fachada escura. O grande prédio. Banco do Brasil, lá estava eu, com 5 vias na mão dando entrada na CACEX . Produtos de exportação. E por falar em Brasil, era uma época também difícil de caminhar distraído pelas ruas. Muita greve, pancadaria, manifestação. Cavalaria , tropa de choque, sons de sirenes. A Praça da Sé lotada de gente. Os militares ainda estavam no poder. Em cada rua que eu andava , podia sentir nos olhos das pessoas uma vontade escondida , todos almejavam a brisa da democracia. Cheguei a ouvir um barbudo gritando alto com megafone na mão. Olha só onde o barbudo hoje está. Mudamos muito...a cidade também . Alguns medos se foram e outros infelizmente se fortaleceram ...

    Após alguns anos, a empresa mudou e as pessoas também . O meu primeiro emprego onde aprendi a te conhecer, ficou registrado na carteira profissional e nas lembranças. O prédio ainda está lá. Eu daqui do carro fico olhando, cai uma garoa fina, o farol já está abrindo. É sábado, a cidade pulsa e muitas histórias ainda nós temos para contar. Eu parei para contar essa. Você não pode parar!