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Literatura - contos

  • Vida de mudança

    O aluguel já estava vencido há dois meses, mas nunca faltava o feijão..
    - Pode arrumá as nossas coisa muié. Já arranjei um caminhão !

    Era assim que ele falava, com todas as letras. Desde pequenino eu ouvia isso e me calava. Ela e os outros quatro filhos também. Entre promessas de mudanças e mudanças de vida, íamos de lá pra cá , trechos curtos ou longas estradas. Para sair do Jardim Peri, onde eu nasci, ir até o outro lado da cidade na Zona Leste, devia ser muito longe naquela época. Nem tinha a marginal Tietê. O caminhão pulava muito , com a garotada na carroceria, enfiada no meio das tranqueiras. Dentro da boleia, o motorista dirigindo, ele renovando os sonhos na cabeça, ela carregando o último rebento nos braços. Eu era apenas um bebê, mas depois de tantas mudanças, posso imaginar como teria sido a minha primeira. Suas frases eram sempre objetivas, tudo se resolvia, dizia que era só mudar as crianças de escola. Os amigos também; era só arranjar outros. Bairro dos Pimentas. A vida ardia. Não tinha luz, não tinha água. Ela trabalhava o dia inteiro fora. Os moleques aprontavam. As maiores me olhavam. Já estavam virando mocinhas. Dizem elas, que foi um sacrifício danado ir para a escola. Estradas de terra, mato fechado, cobras atravessando pelo caminho. Eu não duvido. Se a noite eu via tantas estrelas no céu de uma cidade sem poluição, como posso duvidar da natureza atravessando caminhos? E foram tantos caminhos. Diz a minha mãe, que foram mais de quarenta mudanças. Daria para montar um roteiro.

    Mais um lugar. Mais uma mudança. Ele dizia que ia ganhar na loteria esportiva . Apostava sempre. Detestava futebol, só colava o radio no ouvido para marcar os pontos e conferir no volante. Sorte não vinha. Uma mudança, mas agora de emprego, promessa de uma nova vida no interior. E foram tantas. Nessas, ele ia só. Mocóca, Rio Pardo, Jundiaí, e por aí... Aonde tivesse obra, concreto e peão, lá estava ele. Mais um prédio, mais sonho. Construiu tanto para os outros que esqueceu de si mesmo e dos seus. Esses estavam crescendo. Eu já estava no ginásio, a mais velha casando. Os outros três, levando a vida. A mulher estava ficando mais velha. Ele também, o incansável sonhador. De manhã, sempre cortava o silêncio do sono dos filhos, assobiando, tirando a barba, se preparando para ir trabalhar. Uma coisa é inegável, era um trabalhador. Desde sua chegada, na antiga rodoviária, perto da Duque de Caxias, com a mulher do lado, carregando uma mala velha que mais parecia uma trouxa, dormindo as primeiras noites no CETREN do Brás, seus braços sempre lutaram pelo sustento. Gastou muito, errou também. Não vale a pena diagnosticar os reais motivos de uma vida. Após cinqüenta anos, o tempo carcomeu os seus sonhos . Ela nunca desistiu. Viramos adultos, casamos, tivemos filhos, aprendemos a lição. Cada um de nós cinco, tem um pedaço dessa cidade. É preciso ter uma casa. São Paulo é a nossa !