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Literatura - poesias

  • As palavras

    As palavras vieram como aves no quintal do meu pensamento, 
    chegaram gorjeando seus fonemas e ficaram brincando no varal de minha construção mental . De repente, bateram asas e voaram deixando uma mensagem no céu de minha vida:
    As palavras ferem, ofendem, humilham, dissecam mas também adoçam , enfeitam e preservam .Quando é preciso, elas se transformam.
    Fogem no momento em que mais necessitamos , chegam na hora errada mas tornam-se cristalinas quando o coração quer.
    As palavras enganam outras palavras como: amor, liberdade e paz. Quando na boca dos insensatos são navalhas afiadas prontas para cortar qualquer esperança que se arvôre , mesmo que apareçam na forma de outras palavras.
    Elas invocam os santos, procuram chegar a Deus com o sentimento mais puro , nas suas formas mais simples passam no vazio das bocas sem dentes.
    Invocam o outro lado, o do mal . Em bocas douradas sibilam tentações.
    No egoísmo extremo palavras que viram veneno e matam o próprio criador .
    Palavras rimam e riem de nossa cara quando ouvimos o que não queremos ; engolidas , são a mensagem indigesta. 
    Palavras são honestas , mesmo que por vezes pareçam falsas quando inesperadamente traem seu emissor.
    As palavras são o abismo daqueles que se calam, a tortura e o medo que sufocam o apagado afã da vontade do oprimido.
    Elas são o vazio do branco no papel. Na inércia das mãos do analfabeto querem surgir, desejam ganhar vida, mas são limitadas pela própria circunstância de vida e impotência de quem as deseja.
    Palavras são frutas que se colhem com o tempo, o néctar das doces palavras sempre está na boca certa, apesar de virar fel , quando a mesma boca se torna indesejada.
    Palavras usadas que matam e dilaceram vidas, que também salvam o que parecia impossível diante de um abismo quase inevitável.
    Palavras que surgem no leito de morte mas já moravam na tortura de uma vida silenciosa .
    Efêmeras como uma flor , marcantes como um açoite.
    Palavras que iniciam feito magia na linguagem fragmentada de uma criança.
    Palavras que dançam no ar a espera de seu construtor : a bailarina poesia.
    Palavras que fazem guerras , que semeiam a insistência da paz, que querem continuar surgindo no caderno, palavras do eterno pensar...
    As palavras vieram, brincaram um tempo e se foram...elas sempre vêm e vão...o vento do acaso as leva.... 
    Até o poderoso tempo sucumbe a sua importância...ele sabe porque : 
    eternidade também é uma palavra.